Thursday, February 23, 2012

Estrada de cimento





Penso no pensamento

que me sai da mente
umas vezes presente
outras doente
sendo que nas demais 
encontra-se simplesmente ausente.

Pede perdão
como quem passa por ele
não lhe toca
mas simula
emula sem o fogo sequer arder.
Arde no vento
que por momentos lhe tocou
abanou em tempos de loucura
tornada doçura
coberta de uma leve amargura.

O dilúvio de ideias
e ilusões
vendidas ao desbarato
remediadas daquilo que remediado está
mesmo sem haver remédio
para a maleita que deleita
o doente ausente daquilo que foi a sua saúde de ferro,
hoje gesto terno
coberto de um eterno
inferno.

Outono perdido
coberto de cimento
num inverno sem fim.

Cheguei mesmo a temer por aquilo que nunca fui
e no final fiz.

Diz a lenda que já bem mais faltou
para tão temível bis,
desenhado a giz
onde da ardósia apenas resta a memória.

Hoje a luz substitui a pedra negra.

Foi apenas mais um ponto,
no teatro da vida
que segue sem parar.
Se é que alguma vez começou...

Friday, January 13, 2012

Signo do sol



Perdido por entre o sentimento
da tua ausência presente
gera-se o entorpecimento das extremidades
que ainda há tão pouco tempo se perdiam nas tuas.

É a distância que nos une
e reforça aquilo que a razão 
por vezes nublada que distorcer
cobrindo de floreados desnecessários
à vivência sob o signo do sol
mesmo que durante o dia
pareça que seja a lua quem reina.

Reina o que há para reinar
permitindo e alimentando o ego
do egoísta ser
que para ontem tudo quer
sem querer ferir ninguém,
Apenas alimentar
a sua própria sede de calor humano
que tantas vezes escasseia a seu redor.

É louvor que fica sem ser dito
quando na realidade 
deveria mais era ser gritado
não escutado
mas sim ouvido por todo o mundo.

Não querem saber.
Tão pouco o têm
sendo caricato o posterior lamento do tipo
"Ah e tal, eu não merecia isto..."

Já mê pai diz
algo que dêle dzia
"Boa cama fazes
Boa cama te dêtas"

O meu pai é uma pessoa reservada no que toca a opiniões. 
Mas sempre que ele me dizia isto,
eu.... tremia. 
E perguntava-me sempre
"Oi... o que é que será que estou a fazer de errado?"

E a tua cama?
É fofinha?

Friday, November 18, 2011

Divisão



O que achas de irmos até à outra divisão
despir as nossas roupas
e jogá-las para o chão?

Saturday, November 12, 2011

Sombra de um ser


Sou a sombra 
daquilo que eu sou 
porque deixei de ser 
o que nunca fui.

E se me perguntassem
porque nunca foste
o ser que já não és
não serias tão ou mais 
completo do que aquilo que nunca tiveste?

Seria por certo algo mais
daquilo que não creio
sem saber o que sabia
sabendo que sei
um dia morrerei
mas de voz plena
e peito aberto cantei.

Jamais me perguntes
qual a questão
para a qual não queres ouvir a resposta
sob pena de penares
sem saber o que eu sei
sendo que o que eu sei
é tudo mais ou menos que nada
que em nada se esvai.

Num momento tudo é,
num momento tudo foi
num momento tudo será
aquilo que nunca foi
para ser tornar naquilo que continua a não ser.

A sombra de um ser.

Wednesday, September 07, 2011

Boa Noite



Um resto de boa noite aos presentes
ausentes
transeuntes
Pessoas que fizeram parte da minha vida e se foram
Estranhos que nunca o fizeram e agora estão
A ti que me deste a mão
A ti que me a negaste
A ti que eras fostes e és quem és apenas porque sim
Tu que lutas de uma forma surda
Tu que ouves e não lês
Tu que lês e não dizes
Tu que és mas fazes crer que não
Tu que simplesmente existes
Tu que pintas os meus dias
porque sem ti não sei viver
e ao mesmo tempo sei mas não o digo
finjo que não apenas para te ter aí
Tu que ainda ai estás e lês,
porque tu sim o mereces...
Apenas tenho mais uma coisa para te dizer:
O resto de uma boa noite.

"Like two strangers turning into dust
Til my hand shook with the weight of fear"



Monday, August 22, 2011

Invasão Sonora



Spanish Sahara bombard my heart
left me out
without a sound.

Mas o som continua,
incessante, 
irregular,
inconstante, 
inaudível aos ouvidos dos mais distraídos
traídos pelos seus próprios ideais,
desprovidos de razão
mas cobertos de emoção
ausentes na sua auto-de-pre-ssão.

Toca-se a próxima nota,
a sequência seguinte, 
fecha-se os olhos e deixa-se ir
permitindo que a música invada todos os poros
sem nunca porém deixar-se abandonar à lassidão,
essa entorpecedora de movimentos erráticos.
Tal como se pede,
tal como se exige.

Dá-se o passo seguinte
ao ritmo desconexo do ouvinte.
Ignora-se o ritmo
e deixa-se ir
onde a lógica não tem lugar.
Apenas a evasão.

É tão doce o ausentar momentâneo do próprio ser,
ser-se livre por momentos
sem se pensar no seguinte que se segue,
sem deixar que tal nos cegue.

Pelo menos
por momentos
vivo disto.
A dança doce do luar
permitiu um pequeno pedaço de paraíso
à luz do teu sorriso.

Friday, August 12, 2011

(des)espera



Poderia até ser apenas mais um dia
Onde tudo se fazia,
tudo se dizia,
tudo acontecia...

Na realização da mais pura comunhão
com o mais profundo estado de auto-comiseração
coloca-se a questão
do próximo passo a dar,
evitar o que fere
em conjunção com a procura incessante
do seio reconfortante.

Pousa a mão levemente no chão
como quem procura forças para se erguer 
contra tudo o que lhe oprime,
esmaga e condiciona. 

Tudo pode acontecer
e o estar parado não é opção.
Que o diga quem da sua prisão nunca se libertou.

Verdade que o ar é de todos.
Mas parece que às vezes é só mesmo de alguns. 

Quis respirar, 
mas por momentos
simplesmente tive que parar.

Espera... é só mesmo mais um momento.

Sunday, July 31, 2011

Turb-i-lhão... desconexo e sem sentido



Por entre a ilusão
coberta de fantasia
jaz a demagogia
de quem ora 
anunciando o novo dia.

Ilusão que não foi mais do que uma miragem,
visão entorpecida pelo bonito floreado
corrido, alastrado e não vivido.

Ouve-se ao fundo do túnel
onde a luz brilha em contraste com a presente localização,
imagem fragmentada marcada por tamanha confusão. 

Procura-se a saída
sem que vez alguma se tenha encontrado a entrada.

É o remoinho,
o turbilhão,
evasão do ser 
que recusa viver dos dias pintados de breu.

É o teu, 
é o meu,
quando o nosso raramente se toca.

Isola-se...

Num vão de escada,
perdido na memória de quem já não vive, 
cópias das pessoas seguintes,
que olham, 
ouvem 
e escutam.

Foi mais um dia perdido
que jamais volta a ser recuperado.

Sem que se questione, 
ou se volte atrás, 
o mais importante é que foi divertido.
Não foi rapaz?

Ai, se ao menos a estupidez matasse...

Tuesday, July 19, 2011

E se eu me importasse???



Não me importa o que digam
pensam 
ou ouvem
desde que estejam no vosso canto
recanto 
de encanto
embebido num pranto.
Nunca chorando
apenas crendo 
na ideia de ser
díspar do acontecer.

Poderia até entender
o que estavas a dizer,
mas quanto mais falavas
menos te ouvias
e fingias
acreditar
nas palavras que gritavas
sem que te questionasses
a razão.

Fixas-te no não
e daí não sais desde então.

Enterraste na tua própria crença
ausente
de um valor presente.
Nem precisam ser muitos.
Um é mais que suficiente.

Não apenas abanar a cabeça,
a dizer sim 
apenas porque sim, 
ou alguém que te o diz.

Acreditar
e quando questionado
ou questionada
responder
sem ser de forma cega,
sem abanar, 
sem desrespeitar.
Compreender o que está em redor
e porque falam assim contigo.

Comigo
já foi feito um trabalho
de pessoa ausente
no meu presente
outrora dormente
agora vivente
e ansioso do segundo premente.

Não fujo.
Prossigo aqui.
Ao pé de ti.
De braços ao alto, 
boca desgarrada,
e coração aberto.
A solidão
não é mais do que um momento.
E eu,
estou,
aqui...
...em ti.

Afinal,
não sentes?

Saturday, June 04, 2011

Olho aberto



Sinto-me perdido no sono 
do qual não desperto.

Espero por um momento 
de céu aberto,
ao relento 
e ao encanto
que me leva a partir
sem dividir 
o que me liga a mim.

Desespero perante o pranto
da alma que se encolhe
jazida no recanto.

Espera por mim, 
no Rossio 
onde deixei o sentimento de vazio
preso por um fio.

Nada disto importa,
pois no momento em que se caminha pela porta
o que está à volta
imerso no indiferente 
não dá espaço à revolta.

Perdido na resignação
da emoção 
que não perde perdão
mas retira a vida em cada golfada que dá,
promete mas não cumpre, 
tal como tu
quando cruzas os braços 
e não te importas mais.

Ages como sendo mais do que os demais
mas não mais fazes do que pisares os passos
por eles anteriormente dados.

Ouves com desprimor 
o que não te interessa, 
a conversa que alerta
para a meta
eleita pelo penetra.
E penetra.
E penetra.
E penetra sem que importe ao penetrado
o quanto da sua vida foi roubado.

Louvado seja aquele que dorme com o olho aberto.